Repara bem na ilustração da folha amarrotada em que te escrevo. Não se parece com nada, porque é um desenho abstracto que exemplifica de forma correcta cada traço da nossa alma. Há partes brancas que, apesar de tudo, estão ocupadas pelo vazio. Sofrem em silêncio, mas tentam saltar do papel. Gemem, esforçam-se.
O resto são traços e pintas, estou certa? Sei que sim. Os traços, claro está, transmitem a simplicidade dos olhares, a magia dos sorrisos. Estão em minoria. No entanto, não deixam de ser únicos. Cada um tem uma cor própria em que mal se consegue decifrar qual a sua tinta e a sua pigmentação. As pintas, por contrário, são os momentos de espera, de demora. Ganham nas dimensões planas da folha, porém, são as que menos se fazem notar.
Peço-te, agora, um ultimo pedido. Fecha os olhos com força e tenta decifra-lo, novamente, mas, agora, somente com o tacto. Deixa passar cerca de dois segundos. Volta a abri-los. Não grites, não chames a atenção dos vizinhos. Está todo preto. Sabes o que significa?- estarás a acenar com a cabeça?- se sim, estarás certo. Acabou. Assim me despeço. É a ultima carta. É o primeiro e ultimo adeus.