Tenho o meu olhar preso em cada linha daquele caderno. Tem as folhas todas brancas para narrar, excepto a primeira. É um excerto de um texto diferente, solitário. Que se refere à solidão e que menciona a verdade. O olhar está cravado e parece não querer mover-se. Passo com os dedos por cima das letras e ainda as sinto húmidas. Lágrimas, reflicto. Concluo que não tenha sido escrita assim à tanto tempo. Então, leio-a em voz alta. Soa de uma forma estranha, no entanto, curiosa. A minha voz soletra cada palavra com tanta intensidade que, se existisse alguém para além de mim, naquele lugar, pensaria que estava possuída. Afasto todos os pensamentos paralelos aqueles vocábulos. Leio-a de novo em voz alta, e desta vez destaco uma palavra. Não sei porque o faço, mas está a preocupar-me. «Nada». Questiono-me. Como resposta, vem-me à cabeça outro vocábulo. «Amor». Desta vez, as palavras ficam-me presas nos ouvidos. Sussurram-me e batem à porta da minha pequena, mas ainda assim, doce alma. Percebo que esteve adormecida por uns breves instantes, mas que abre a porta com um sorriso que não descodifico se é verdadeiro ou não. Então, ela grita. Grita e fecha a porta, de súbito.
Fecho o caderno e vou lá fora. Encontro um papel amachucado e abro-o com brusquidão.“Eu descobri do pior jeito, que nada é o que parece.” Os meus olhos não acreditam no que vêem e o meu coração muito menos. Era a mesma frase que estava presente naquele caderno de capa dura em que, eu, outrora, perdera o pensamento.


