"Hoje, não venho falar de amor. O amor morreu no dia em que partis-te, apesar de eu continuar a escrever sobre ele. Eu hoje, venho falar sobre toda a saudade de momentos não vividos. Porque amar cansa, e é destinado aos fortes. Deixa-me relembrar essas recordações passageiras, reerguer as minhas vontades, fazer de conta que sou mais meu do que dos outros. Eu tenho essa mania de dar. Dar tudo. Entregar assim mesmo, de mão beijada os meus segredos. Não quero falar de amor porque desaprendi o seu significado. Sim, também o perdi. Perdi todo e qualquer resquício de compaixão ou afeição. É pedir muito querer ficar só? Deixa-me tentar manter de pé os meus castelos, não viver por ninguém. Gosto de me prender ao vazio. É errado? O vazio pelo menos não destrói. Dele eu não passo. Ou fico ou saio. Conforto-me na incredulidade, porque o “crer” depende das circunstâncias. E as actuais não são nada boas. Eu sei, é repugnante pensar que alguém é quase ou totalmente ausento de sentimentos. E eu não sou, só finjo. A aparência, o mostrar-se forte, valem mais que o ser. Que o sentir, de facto. Eu não quero falar de amor porque ainda dói. Ainda é viva aqui, a marca do último olhar. O destino é continuamente reescrito e esconde as suas mãos. Não é à toa que nada disso faz muito sentido. Eu amei implorando uma resposta para uma pergunta que nunca fiz. Eu sinto saudades, confesso. Criei uma personalidade inexistente, tentei enganar a minha fragilidade, quis fugir da minha essência, negar os meus medos e esconder a minha timidez. Tudo isso em troca de um adeus que eu nunca dei. Eu não quero falar de amor porque há amor em tudo. Ou apenas excesso em mim. Porque eu desmancho-me em lágrimas quando citam o teu nome e não encontro força para voltar atrás. Diz-me, aqui, baixinho mesmo, onde foi que nos perdemos? Eu preciso retomar as rédeas da minha vida, desprender-me de toda essa banalidade super valorizada. Eu não quero falar de amor porque, no fundo, eu sou só isso. E não o quero ser. Não quero ser um fantoche mais uma vez, um coração a lutar por dois. Espírito forte e a carne fraca, com a tristeza estampada no rosto por não ter com quem dividir momentos ou fraquezas. Aquelas histórias engraçadas ou o sonho da noite passada. Hoje eu não quero falar de amor, quero inverter os papéis. Tu sentes e sofres. Eu só lamento. Lamento muito."

